by Max Barry

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by The Principality of Caxina. . 23 reads.

A Custódia e o Desejo de Voltar

Apenas há uns dias tudo estava bem. Eu tinha convocado a Caster para este mundo, e devido a infelizes circunstâncias Rider tinha-se juntado a mim. Assassin tinha morrido num confronto com Rider e Saber, enquanto que Lancer e Archer andavam ainda desaparecidos. Berserker não se havia ainda mostrado, mas a devastação tinha chegado àquela pequena cidade do Norte de Portugal. Uma onda de violações e mortes tinha chegado e apelas ele poderia ser a causa. Afinal, que outra criatura poderia cometer actos tão atrozes?

Me levantei da cama, um alarme disparou. Rider e Caster deveriam tratar daquilo depressa. Afinal as 2 davam-se extremamente bem, eram diferentes, mas compatíveis. Caster havia tratado de Rider quando a encontramos depois da morte do seu Mestre. Assassin causou uma última morte antes de desaparecer e um aristocrata português era a vítima ideal. Pobre rapaz, nunca soube o nome dele, apenas que se intitulava Conde de Faro, um membro menor da Casa de Bragança, sem nome importante na história. Não procurei saber o nome dele e Rider também não o sabia.

Ouvi berros. Uma voz familiar berrava de dor. Não. Não podia ser. Era uma voz familiar e amigável. Caster!

Corri. Estava ainda de pijama, mas não poderia ficar parado. O meu quarto ficava na outra ponta daquela moradia que havia herdado dos meus avós, iria demorar até lá chegar. Os berros continuavam, eram insuportáveis. Não. Não. Não. Tinha de me apressar. Conseguia ouvir as duas mulheres a berrar, a tentar se defender. Mas era em vão. Uma voz profunda enchia a casa, com um riso maléfico.

Caí. Tropecei em mim próprio e caí de cara no chão. NÃO. Não me podia ficar. Levanto-me e corro mais um pouco. Os meus chinelos deslizavam pela tijoleira antiga imaculadamente lavada. Tirei-os para não cair mais, mas acertei numa jarra chinesa e ela caiu ao chão. O barulho de porcelana a partir ecoou pela vivenda. E eu já estava perto o suficiente para ver o que se passava.

A bondosa idosa, de sorriso caribenho e com cabelo feroz, estava morta, ou quase. Garras de ferro haviam trespassado o seu abdómen e ela cuspia sangue. Reparei que ela murmurava algo, mas era inaudível. Eram as suas últimas palavras quase de certeza. Quis chorar. Aquela idosa se havia tornado quase numa avó nestas últimas semanas. Rider montava o seu cão gigante, que tentava morder o braço do gigantesco assaltante. Mas não havia maneira. A luta estava perdida, Caster iria morrer ali, e não havia nada que eu pudesse fazer. Se eu tivesse sido criado numa família ligada ao Oculto… talvez pudesse fazer algo, mas eu havia entrado neste mundo semanas antes e tudo o que sabia foi o que Caster me ensinou.

Comecei a chorar enquanto olhava para aquela macabra cena. Eu nunca tive uma chance de ganhar isto. Mas… Eu tinha esperança. Agora não, todo o meu corpo se encheu de medo ao ver o invasor. A sua pele era escura a sua cara grotesca e irradiava uma aura maléfica. Era semelhante a um demónio da literatura. Porquê? Quem? Quem era ele? Convocar um demónio mesmo que possível nunca iria trazer algo assim ao mundo, Caster lhe contou isso quando lhe começou a ensinar.

Um último sorriso correu nos lábios da idosa e a mulher loira que continuava a tentar lutar estava cada vez mais desesperada. E então, uma explosão. A idosa explodiu numa onda de luz que me atirou contra uma parede. Rider ficou imóvel e um buraco se abriu no tecto daquela vivenda que eu herdara dos meus avós. O invasor ficou inquieto, agressivo… Rider afastou-se dele, pegou em mim e fugiu. Precisava de fugir. Sair daquele pesadelo. A Igreja! Só lá iríamos estar a salvo. Ou pelo menos era isso que eu queria, mas…

Um homem vestido de monge e um homem vestido com uma estranha mistura de veludo, couro e ferro interceptaram-nos. Eu estava inconsolável. Um rio de lágrimas corria sobre minha face e a mulher loira que me segurava tinha uma cara pálida. “Rider, estás pronta para morrer?” disse o homem estranhamente vestido. Ela não respondeu. Manteve-se imóvel parada no meio daquela floresta que precedia o nosso destino. Ela murmurava algo, eu não o conseguia ouvir. Mas os dois homens notaram.

“Mais uma morte… E este é o Mestre correto?” Ela acenou com a cabeça. Eles sabiam? E não fizeram nada? Ódio e raiva invadiram-me, mas ela tapou-me a boca antes que eu pudesse falar. Uma flecha dourada voou em nossa direcção, atingindo uma árvore ao nosso lado. Uma mensagem escrita numa língua que eu desconhecia lá estava escrita. Seja quem fosse o atirador, ele não pretendia nos matar. Isso era uma garantia. Os dois homens leram a mensagem em voz alta, mas eu não entendi o que dizia. Rider entendeu e acenou com a cabeça. Pousou-me no chão e sorriu para mim. Murmurou um ténue “Até já, Mestre”, mas eu sabia que ela não ia voltar. Ninguém ia voltar. Nem os dois homens, nem a bela mulher de cabelos loiros. O destino deles era a morte. Iam atirar-se a uma armadilha, para proteger aquela pequena e pacata cidade nortenha.

Corri na direcção oposta, para junto do ponto seguro. A bela igreja de pedra estava em chamas. Um padre jazia morto no chão, e duas crianças que pareciam estar aos cuidados dele estavam imóveis, com olhos de choro cuja luz se havia apagado. Aproximei-me, mas não houve reacção. Toquei no pulso de uma delas, e, não senti nada. Estava fria. Quem é que se atrevera a fazer tal coisa. Reparei nas mãos delas. Possuíam um símbolo na palma, semelhante em cor ao que eu tinha. Também elas eram Mestres e estavam mortas… Duas inocentes vidas extinguidas como velas que perderam o seu seguro castiçal.

O cemitério era próximo e eu tinha de dar um enterro digno aqueles humanos vítimas de uma morte que fora demasiado cedo. Não possuíam feridas no seu corpo, mas os seus lábios estavam pretos. Tinham sido envenenadas. Que monstro faria tal coisa? Enterrei os corpos. E chorei um pouco por eles. Não sabia os seus nomes, mas não os podia deixar a apodrecer contra os elementos. Colhi flores e coloquei-as sobre as suas campas improvisadas. Horas se haviam passado e o incêndio na igreja havia sido extinto por si próprio. Apenas pedra queimada restava. Entrei no edifício e, no altar, uma belíssima peça de ouro iluminava o triste interior.

Olhei para a minha mão. A minha ligação a Rider estava a desaparecer. Ela estava a morrer… devia ir ter com ela, voltar a vivenda que havia herdado. Mas… não podia, se o fizesse iria apenas atrapalhar. Eu sabia isso e chorei mais um pouco. Como havia sido estúpido em acreditar que poderia alcançar um final feliz. Tantos inocentes haviam morrido naquela triste e desnecessária luta por um Falso Santo Graal que ninguém iria ter. Não havia nenhum graal naquela igreja, apenas uma custódia dourada, ricamente trabalhada. Eu reconheci o objecto, afinal, meu irmão era membro do clero e ele me havia mostrado imagens daquela peça. Mas… ela não deveria estar aqui. O seu lugar era longe daqui. Ela deveria estar no Museu Nacional de Arte Antiga.

Entrei em pânico. Tudo o que me tinham dito era mentira. Não havia nenhum Santo Graal que iria realizar desejos. Apenas uma peça de imitação que sem sequer poderia ser roubada. Era um tesouro nacional que estava em linha. Deveria chamar a polícia, acabar com aquilo. As forças de autoridade iriam acabar com esta loucura. Apenas as forças da lei poderiam acabar com aquilo. Mas… isso era apenas uma ilusão. Nada o poderia salvar excepto ele mesmo.

E de repente, passos. Alguém entrou na igreja. Não tinha tempo de me esconder. Se fosse para encontrar a morte, mais valia fazê-lo com orgulho. Virei-me para a entrada e vi um homem vestido de preto, com manchas de sangue.

“Acabou. O demónio morreu” disse ele com uma voz profunda. “E tu meu vassalo, és o último Mestre sobrevivente nesta guerra. Aceitas me servir? Eu, o Príncipe Perfeito que vai salvar esta nação?”

Príncipe Perfeito? Este homem era quem eu pensava que era? Coloquei um joelho no chão e baixei a minha cabeça, “Sim, vossa Alteza”.

“Tende orgulho, pois vós entre os 7 fostes o único que sobreviveu a esta guerra. Inocentes morreram e vós sobreviveste, meu vassalo. E agora, é a altura de reclamar o meu. Não, nosso, prémio, meu vassalo”

A personagem vestida de preto tocou-me no ombro com a sua mão sangrenta e uma ligação instantaneamente se formou. Um contrato tão rápido? Este homem era claramente o grande D. João II, o Príncipe Perfeito. Mas Archer não parou e continuou até chegar parto da Custódia de Belém.

“Qual é o vosso desejo, meu vassalo?”

Eu não conseguia falar, mas claramente o homem sabia o que eu desejava. Ele era perceptivo o suficiente para o saber. Eu olhei para ele e senti-me a desfalecer. O cansaço havia me atingido. Eu sabia que iria acontecer eventualmente. Apaguei… a minha mente ficou em branco. E então, acordei. No meu quarto, na vivenda que havia herdado. Corri para a janela que permitia ver a torre da igreja. Não havia sinais de queimado. Desci as escadas e não havia buraco no tecto, ou uma parede rebentada. Não havia nenhum pedaço de porcelana partida, nem manchas de sangue. A vida havia voltado ao normal, talvez…

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